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sábado, março 2, 2024

Belíssimo e hipnotizante, filme sobre solidão e autoconhecimento na Netflix vai deixar seu espírito mais leve

“Wild” (2014), sob a direção de Jean-Marc Vallée, apresenta uma jornada de autodescoberta e redenção, ancorada por uma performance visceral de Reese Witherspoon. A trama segue Cheryl Strayed, que se aventura em uma caminhada solitária de mais de mil milhas na Pacific Crest Trail, numa tentativa de se reconciliar com seus demônios pessoais e tragédias passadas. Vallée habilmente evita as armadilhas de um melodrama convencional, optando por uma narrativa que entrelaça o presente físico árduo de Cheryl com flashbacks que revelam gradativamente o tumulto emocional e as circunstâncias que a levaram à trilha. Essa escolha narrativa cria uma sensação palpável de introspecção, fazendo o espectador compreender melhor a complexidade da protagonista.

Witherspoon, que também atua como produtora, entrega uma das atuações mais cruas e despojadas de sua carreira. Ela encapsula a vulnerabilidade, a força bruta e a determinação de Cheryl com uma honestidade que transcende a tela. A fisicalidade de sua atuação é especialmente notável, refletindo o desgaste físico e emocional de sua personagem. A cinematografia de Yves Bélanger é um triunfo em si. Capturando as vastas e implacáveis paisagens da trilha, o filme convida o espectador a contemplar tanto a beleza quanto a brutalidade da natureza. Esta escolha estética não apenas serve como um pano de fundo impressionante, mas também como um personagem silencioso, influenciando e refletindo o estado interno de Cheryl.

A edição de Martin Pensa e Vallée (sob o pseudônimo de John Mac McMurphy) é outro ponto forte. A justaposição de cenas do passado e do presente é feita com tal fluidez que amplia a experiência emocional sem se tornar confusa ou forçada. Este estilo de edição contribui significativamente para a narrativa não linear do filme. No entanto, o roteiro de Nick Hornby às vezes peca por não explorar completamente alguns aspectos secundários da história. Embora o foco seja em Cheryl, personagens secundários e suas interações com ela às vezes parecem subdesenvolvidos, deixando o espectador querendo saber mais sobre como essas relações moldaram sua jornada.

A trilha sonora, composta por uma mistura de canções licenciadas e composições originais, é eficaz, mas ocasionalmente intrusiva. Em certos momentos, as escolhas musicais parecem impor uma emoção ao invés de complementar a cena, o que pode distrair da narrativa. Um aspecto particularmente notável é como o filme aborda temas de luto e recuperação sem cair no sentimentalismo barato. A representação de Cheryl lidando com a perda e a culpa é feita de maneira respeitosa e crível, tornando sua jornada mais relatabilizável e impactante.

“Wild” também é uma história sobre a capacidade humana de resistência e renovação. A trilha é tanto um catalisador para a mudança quanto um espelho para a introspecção de Cheryl. Este tema ressoa profundamente, incentivando uma reflexão sobre a própria capacidade de superação e crescimento pessoal. “Wild” de Jean-Marc Vallée é uma obra contemplativa e habilidosa que desafia os limites do gênero de filmes de autodescoberta.

Com uma performance estelar de Reese Witherspoon e uma abordagem cinematográfica que equilibra habilmente o brutal e o belo, o filme consegue capturar a essência da jornada de Cheryl Strayed de uma maneira que é ao mesmo tempo pessoal e universal. Embora possa haver falhas menores na execução de alguns aspectos secundários, elas não diminuem a força emocional e a ressonância do filme. “Wild” é uma reflexão sobre a dor, a redenção e, acima de tudo, a força inquebrantável do espírito humano.


Filme: Wild
Direção: Jean-Marc Vallée
Ano: 2014
Gênero: Aventura/Thriller
Nota: 9/10

Fonte: R7 – Cinema

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