Inflação para famílias de renda mais baixa cai 0,60%
IPCA tem deflação de 0,68% em julho, menor taxa da série histórica
Anvisa proíbe uso do fungicida carbendazim em produtos agrotóxicos
Caminhoneiros recebem auxílio com parcela dobrada
Estudo mostra alta da pobreza em regiões metropolitanas

Em “Vita Mia”, um tocante passeio de Cyro di Laurenza pela Paulicéia

Na capa, a irmã Lelé e Cyro de Laurenza

Na capa, a irmã Lelé e Cyro de Laurenza Reprodução

Naqueles meus idos de estudante de Arquitetura, entre os anos de 1963 e 1967, era comum que os da minha turma, arrogantemente, e grosseiramente, até, considerassem que éramos artistas privilegiados enquanto os outros da Engenharia não passariam de meros misturadores de concreto. Tolice mais do que cretina, eu descobri, no decorrer do curso, ao ter aulas de Protendido com o saudoso Roberto Zuccolo, o calculista mágico que transformou em realidade o precioso projeto do Museu de Arte de São Paulo, que Lina Bo Bardi havia desenhado com o seu vão livre, sem pilares, de absurdos 74 metros.

O MASP, vão livre de 74 metros

O MASP, vão livre de 74 metros Reprodução

Um dos pupilos do Zuccolo, também ele de ancestrais italianos, Cyro de Laurenza foi sumariamente o melhor de todos os educadores que eu conheci, do primário até a Universidade e aos meus pós. Era um poeta, um jovem docente com os ares de um anjo barroco, que não admitia que o chamássemos de Professor. Graças ao Cyro eu me fascinei por disciplina aparentemente tão rústica, a ponto de, em suas provas, ultrapassar o tema exigido e inclusive propor estruturas de audaciosa fantasia. Posteriormente, ele seguiu carreira na administração pública e, em certa ocasião, quando visitei um concorrido bar paulistano de música ao vivo, me surpreendeu como o excelente saxofonista de uma banda de amadores batizada de Swingin’ Sound. Uma performance incrível, sensacional.

Na Swingin' Sound, ele, na fila de baixo, o segundo a partir da esquerda

Na Swingin’ Sound, ele, na fila de baixo, o segundo a partir da esquerda Arquivo Pessoal CdeL

Pois agora o já veterano Cyro me impacta como o autor temporão de um livro de fato delicioso, “Vita Mia”, editado pela Laserpress, 306 páginas do que parece ser, pelo título, uma autobiografia, e no entanto vai muito, muito além. Trata-se, na verdade, da saga empolgante de uma “Famiglia”, mescla de várias origens da Velha Bota, do Vêneto a principalmente o Sul, Salerno, que buscou, como a minha, o “Risorgimento” na América. “Vita Mia” não se limita à trivial exposição dos fatos óbvios em ordem cronológica. Com o suporte sereno e afetuoso da jornalista Ana Maria, também a sua esposa desde 1983, erigiu uma obra de texto irretocável, no qual as descrições se enriquecem com “flashbacks”.

Cyro e a esposa Ana Maria

Cyro e a esposa Ana Maria Arquivo Pessoal CdeL

O Capítulo 1, “Último encontro, hoje perdi meu pai”, datado de Setembro de 1939, é empolgante na sua cinematografia. Acontece uma briga de rua, no bairro paulistano do Brás, entre a Serraria do Almeida e a linha de trem da Central do Brasil, o Cyro bebê no colo da “mamma” Vanice e a irmã Lelé, seis de idade, agarrada à saia da progenitora. Diante de circunstantes que ora se omitem, ora torcem e ora tentam apartar, ali se engalfinham um senhor, o pai de Vanice, e o seu marido, um jogador de cartas e descontrolado apostador em cavalos, que tinha abandonado a dama e se sentia no direito de rever os bambinos. Tal contenda o apostador perdeu. E derrotado desapareceu da vida de Cyro, Lelé e Vanice.

Com os netos Giovanni, Chiara e Catarina

Com os netos Giovanni, Chiara e Catarina Arquivo Pessoal CdeL

O lírico estilo, entre emocionado e aliviado, ou entre magoado e irônico, com que Cyro descreve a cena, já prenuncia como seguirá o seu mergulho apaixonado nas aventuras de uma “Brava Gente” que, adequado pleonasmo, literalmente desbravou boa parte da Zona Leste de São Paulo. Das suas frases emanam aromas de molhos, o gosto de lágrimas, a temperatura de febres e o temor pela eclosão da II Guerra Mundial. Pena, só, que a sua “Vita Mia” não vá além de 1945. Quem ler o livro sem conhecer outros detalhes do seu lado profissional, na prancheta ou na escrivaninha, não saberá que ele, desde a década de 80, batalha ingentemente pela valorização dos transportes ferroviários no País. “Valorização”? Ah, essa palavra não passa de um eufemismo triste para algo que nem existe mais.

Garoto engenheiro, nos meados da década de 60

Garoto engenheiro, nos meados da década de 60 Arquivo Pessoal CdeL

Gostou? Clique num dos ícones do topo para “Compartilhar”, ou “Twittar”, ou deixe a sua opinião no meu “FaceBook”. Caso saia de casa, seja cauteloso e seja solidário, use máscara, por favor. E fique com o abraço virtual do Sílvio Lancellotti! Obrigadíssimo!

Fonte: R7 – Esportes

Compartilhe este conteúdo!

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.