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Falta de acesso à saúde da população trans passa por não inclusão em pesquisas clínicas

ANA BOTTALLO – SAMUEL FERNANDES

O desenvolvimento de novas drogas, tratamentos e vacinas passa por ensaios clínicos antes de serem aplicados na população, mas a falta de diversidade pode inviabilizar alguns grupos sociais.

Um estudo publicado em 2020 na revista Contemporary Clinical Trials Communications buscou quantos bancos de dados sobre câncer possuíam informações de pessoas transgêneros e gênero diverso (não-binárias) nas suas pesquisas. Do total de 6.986 estudos analisados, só 153 (2,2%) incluíram pessoas trans e gênero diverso.

Os testes clínicos podem envolver milhares de indivíduos e buscam assegurar a eficácia e segurança dos fármacos no público geral. Essas pesquisas têm início em humanos após o atestado de segurança e de ação mínima em outros animais.

A falta de inclusão e diversidade nos ensaios, porém, pode levar à ausência de dados de como alguns remédios podem se comportar em populações específicas, penalizando em particular as pessoas transexuais e transgêneros.

Quase nenhum ensaio clínico para novas drogas conta com pessoas trans entre os voluntários. Em geral, os critérios de elegibilidade incluem idade, condições prévias de saúde e o sexo -este definido, na maioria das vezes, pelo sexo biológico, o que exclui as populações trans.

“Esse é um debate que sempre levamos porque os corpos não são iguais, os corpos trans, de pessoas negras, eles não devem ser vistos como sendo iguais àquela população majoritariamente branca e cis”, afirma Altamira Simões, psicóloga e coordenadora da Cippe (Comissão Intersetorial de Políticas de Promoção da Equidade), ligada ao Conselho Nacional de Saúde.

Para ela, a ausência de informações sobre a população trans em saúde vai além. “Não é nem uma questão de biologicamente a população trans ser tratada como igual, ela é totalmente invisível para a ciência”, diz.

Outro dilema é que os próprios bancos de dados têm problemas para compilar a identidade de gênero. Um artigo de 2019 analisou sistemas digitais para registro de testes clínicos, como o Clinicaltrials.gov, maior do tipo nos Estados Unidos.

Ao adicionar um ensaio na página, as únicas opções eram sobre sexo biológico –”masculino”, “feminino” ou “ambos”– e pesquisas que registraram a identidade de pessoas trans não podiam adicionar esse dado.

Renata Rangel, fonoaudióloga e coordenadora do Núcleo Trans da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), cita o exemplo de uma pesquisa que foi feita no centro para levantar as dificuldades da população LGBTQIA+ durante a pandemia. O estudo apresentava um questionário para reportar as identidades dos respondentes.

“A gente acredita que essa categorização tem que ser bem definida para não colocar no mesmo balaio [grupos distintos] e inferir conclusões que não são atribuídas a todas as pessoas”, afirma.

Além de formulários com os campos inclusivos, os pesquisadores interessados em desenvolver ensaios clínicos devem ativamente buscar essa população para sua inclusão.

É isso o que defende – e faz – o químico e professor da USP de Ribeirão Preto, Carlos Sorgi. O pesquisador montou, junto com colegas da instituição, um consórcio de pesquisa para estudar dados de saúde na população trans. A principal pesquisa em andamento agora busca avaliar se existem marcadores ligados a ter um quadro de Covid mais grave nessa comunidade.

“Sabemos que, para a Covid, existem diversos fatores de risco que podem indicar um quadro mais agravado, como por exemplo idade, comorbidades, ou ser do sexo masculino. Mas será que um homem trans recebendo tratamento hormonal [com testosterona] vai ter risco maior do que uma mulher cis? E, se a pessoa que é trans contrair o coronavírus, deve parar o tratamento hormonal? Existe uma lacuna sobre isso pois não temos estudos”, afirma.

A pesquisa, que buscou pessoas transexuais em atendimento no ambulatório ligado ao CRT (centro de referência e testagem IST/Aids) e em situação de rua, é desenvolvida em conjunto com a professora da Escola de Enfermagem da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e coordenadora do programa USP Diversidade, Ana Paula Morais Fernandes. O estudo oferece ainda testagem gratuita para Covid e outras infecções.

“Nosso grupo de estudo é de 1.500 pessoas, das quais, naquelas que tiverem resultado positivo para Covid, vamos colher amostra de sangue e buscar em laboratório esses marcadores moleculares. Também queremos entender se uma coinfecção com outros agentes virais, como o HIV, pode agir”, explica Sorgi.

Além da pesquisa com Covid, o Núcleo de Pesquisas em Pessoas Trans, que recebeu apoio financeiro das Pró-Reitorias de Cultura e Extensão e Pesquisa da USP, vai realizar a partir de agora outros estudos com esse público-alvo.

“É preciso começar a testar medicamentos mais clássicos nessa população, é a chamada medicina de precisão, e se for o caso colocar nas bulas orientações diferenciadas”, diz Sorgi.

Outro ponto que perpassa à saúde das pessoas trans é entender os vários problemas que as atingem, como a estigmatização relacionada às ISTs (infecções sexualmente transmissíveis, como são chamadas as DSTs), afirma Emilia Jalil, médica infectologista do Laboratório de Pesquisa Clínica em DST e Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz).

“O que a gente tem observado é [que] a vulnerabilidade das pessoas trans é muito além de meramente uma IST”, diz.

Ela também defende o respeito às identidades de pessoas que não são cis. “Muitas vezes quando vai para pesquisa biomédica mais ‘dura’, até há informações sobre sexo, mas não sobre identidade de gênero”, afirma.

O mesmo é proposto por Theodoro Rodrigues, 38, homem trans e primeiro conselheiro nacional de saúde com essa identidade do órgão que presta auxílio ao Ministério da Saúde.

“É preciso começar já na grade curricular de todos os cursos da área da saúde a questão do acesso à saúde e em específico da população trans. Ainda hoje, quando vamos em uma consulta, passamos por um clínico geral, e muitas vezes esse profissional não sabe lidar com a diversidade”, relata ele, que também advoga pela valorização da produção científica de pessoas trans.

“Nós não nos colocamos hoje apenas como ‘objetos de pesquisa’, temos nossas especificidades e produzimos conhecimento, e isso deve ser valorizado”, afirma.

A pesquisadora da Fiocruz também chama a atenção para um sistema do SUS em que, ao optar pela realização de uma mamografia, só há a opção para o sexo feminino. “Se um homem trans precisa fazer uma mamografia, o sistema bloqueia.”

“Nosso corpo não é um corpo alienígena. A cirurgia de mastectomia já é ofertada no SUS para mulheres com diagnóstico de câncer de mama, é preciso também orientar e conscientizar melhor o atendimento para um homem trans que busca esse procedimento, e se ele pode fazer por exemplo durante o tratamento hormonal ou não”, diz Rodrigues.

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Fonte: R7 – Brasil

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