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terça-feira, julho 16, 2024

CRÍTICA | O Último Animal

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Não é novidade assistirmos mais um filme que tenta mostrar as interseções entre a vida periférica e vida burguesa no cinema brasileiro, especialmente com a rodagem sendo feita no Rio de Janeiro. O diretor Leonel Vieira, português, sonhava em realizar um projeto com este tema há muitos anos. 

O que, obviamente, causa sempre um pé atrás quando um realizador de um contexto social quer se aventurar em uma história totalmente diferente socialmente, ainda mais com uma ampla e diversificada filmografia sobre o tema, desde Rio, 40 Graus (1955) de Nelson Pereira dos Santos, passando por Tropa de Elite (2007) de José Padilha até Alemão (2014) com direção de José Eduardo Belmonte. Porém, isso nunca vai definir uma obra por completo.

O Último Animal se passa no Rio de Janeiro contemporâneo e acompanha a história de Didi (Junior Vieira), mais um dos milhões de moradores de favelas da cidade que sonha em melhorar a sua e a vida da sua família. A vida do protagonista vai mudando de rumo após descobrir seu indireto envolvimento com Dr. Ciro, o chefão do jogo do bicho.

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Desde os segundos iniciais, o longa puxa a experiência para o embate entre a vida da favela e a vida burguesa, sempre deixando claro os seus lados na sociedade. Sempre com closes e atraindo o espectador para próximo dos personagens, a conexão acontece de forma quase instantânea, inclusive com o bom uso da narração para habituar cada vez na situação. Isto alinhado com uma forma que prioriza a imagem neste início de obra, gera um efeito poderoso.

O narrador afirma: “A merda fede de verdade quando o animal decide usar terno e gravata”, e vem uma das melhores passagens do filme. Ao chegar para a entrevista de emprego, Didi é o único negro e com o entrevistador o tratando de forma grosseira e limpando a mão após cumprimentá-lo. Sentado para responder um formulário, o protagonista é posto no canto inferior direito da tela, em um ambiente mórbido, o sufocando na composição do plano. Nessa simples cena, o diretor impõe a questão que será debatida durante o resto do longa.

Apesar do primeiro ato acatar essa decisão estilística, as inúmeras relações distintas de diversos personagens agirá como um freio no desenvolvimento do filme. Buscando mostrar a complexidade da vida urbana carioca, a obra se enrola em sua própria ambição, tentando ampliar as relações entre personagens mas terminando apenas preenchendo mais o filme com situações questionáveis. O grande destaque do filme neste ponto foca no desenvolvimento de três núcleos: Didi, Alex e os chefões de cada lado social (Calango, irmão de Davi, e Frank Martinez e Ciro, chefes de esquemas ilegais envolvendo jogo do bicho, corrupção e tráfico).

Neste último núcleo surgem os pontos altos do filme, pois a relação entre Didi, Alex e suas respectivas vidas preparam o embate direto desses lados sociais, isto é, tiroteios na favela, investigações e, como cereja do bolo, a ascensão social de cada. Ao invés de focar em cenas abstratas que foram muito bem utilizadas na primeira parte, o filme se volta para o diálogo extenso e sem o mesmo impacto visual. No início da operação policial na favela, a montagem mostra Didi observando tudo pela janela de sua casa, em um plano médio apenaso filmando de costas. Há um corte para o braço do personagem, com ele cerrando o punho. A seguir, sua mãe de joelhos, rezando. Esta sequência acontece sem mostrar tiros, com estes presentes apenas no áudio ao fundo. Essa escolha mais visual, focada mais em mostrar do que falar, é onde o filme encontra seus momentos mais emblemáticos.

A raiva de Davi pela morte de seu irmão e sua futura mudança de rumo na vida não são ditas ou escritas em tela, mas a visão do futuro é óbvia. Complementando esse ritmo e levantando a obra, as cenas a seguir são mais diretas, buscando sempre deixar evidente as expressões de Junior Vieira em sua nova jornada de vingança. De um recém-formado buscando uma vaga de emprego para o sucessor chefe da favela após a perda do irmão, o impacto é grande no espectador pela linguagem do longa ter evidenciado bem a diferença entre a vida pobre e burguesa, no primeiro ato, como disse.

O ritmo entre uma cena contemplativa, uma cena direta e a narração já havia mostrado um maior impacto, principalmente pelos elementos cinematográficos já estarem sintonizados em busca de conectar o espectador mais profundamente com os personagens centrais, sobretudo com os enquadramentos mais próximos e a iluminação variando com a realidade de cada personagem em cena. Enquanto as cenas com a presença de Frank e Alex, os burgueses, possuíam um tom branco acompanhado de figurinos mais formais, as passagens com Didi são amareladas, remetendo sempre aquela clássica forma de diferenciar os chefões e os rebeldes.

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Com seus pontos altos sendo o primeiro e últimos atos, O Último Animal acaba produzindo uma ótima reflexão sobre a realidade brasileira, especialmente carioca, e suas inúmeras complexidades. Contudo, sua ambição em querer falar mais do mostrar acaba freando o que poderia ser uma obra mais impactante.

Foto/Divulgação: © StopLine

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Fonte: R7 – Cinema

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